Segunda-feira, 23 de Abril de 2007
25 de Abril - uma imagem 33 anos depois




25 de Abril 1974

Uma imagem, 33 anos depois…

 
 

Chamava-se Catarina

O Alentejo a viu nascer

Serranas viram-na em vida

Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria

Flores na campa lhe vão por

Ficou vermelha a campina

Do sangue que então brotou…[1]

 

Portugal viveu durante 48 anos debaixo do terror fascista, onde o medo, o grande capital e os grandes latifúndios dominaram o país, oprimindo e explorando o Povo. Muitos caíram alvos de balas assassinas… outros, à força da tortura, dos maus-tratos, das más condições de saúde e alimentação, tombaram nas masmorras da Pide e nos campos do Tarrafal, para que Portugal fosse um dia um País Livre e Democrático.

 

A luta continuou durante muitos anos…

 

Apesar dos reveses sofridos pela Oposição, o Povo caía para logo se levantar, organizado nos Sindicatos, nas Associações Recreativas e Culturais. O espírito de classe foi-se enraizando no seio dos trabalhadores, dando mais alento às suas lutas. Os Operários, Camponeses, Soldados e Marinheiros foram engrossando o caudal dos resistentes…

 

Por cada flor estrangulada, há milhões de sementes a florir[2]As cantigas foram a arma que desafiou o Poder. As vozes de Adriano, Freire, Zeca, Sérgio, Zé Mário, Fanhais, entre outros, minaram as forças opressoras e acordaram as consciências adormecidas.

 

Durante 13 anos o Poder sustentou, à custa da juventude – a maior riqueza de um País! – uma guerra colonial sangrenta onde perderam a vida, ficaram feridos ou estropiados milhares de portugueses.

 
Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar?
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
(…)
 
O soldadinho já volta
Está quase mesmo a chegar.
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho

Nunca mais se fez ao mar.[3]

 

Para que nunca se esqueça Abril, deixo aqui algumas das datas importantes dos dois últimos anos que antecederam a Revolução dos Cravos:

 

1 de Janeiro 73 - Na capela do Rato, em Lisboa, o padre Alberto Neto presidiu a uma vigília e greve de fome pela Paz. A capela foi invadida pela polícia de choque que reprimiu violentamente os participantes. Foram presas setenta pessoas. Mais tarde o padre Alberto foi destituído das suas funções.

4 de Abril 73 - Em Aveiro, no III Congresso da Oposição Democrática, foi reclamado o fim da guerra colonial e a instauração das liberdades democráticas. A polícia, a GNR, os cães e a Pide reprimiram violentamente os congressistas, convidados e assistentes.

Dezembro 73 – Foi escolhida a Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas. Neste mês foram presos pela Pide 170 estudantes que participavam numa reunião na Faculdade de Medicina de Lisboa.

Fevereiro 74O general Spínola publicou o livro “Portugal e o Futuro” que se esgotou rapidamente.

5 de Março 74 - Em Cascais, 200 delegados do Movimento marcaram uma acção militar para o mês de Abril.

9 de Março 74 - O Governo, pressionado pelos ultras e pelo mal estar que o livro de Spínola causou nas forças armadas, decretou o estado de alerta em todos os quartéis. Américo Tomás, presidente da República, exigiu que Marcello Caetano, presidente do Conselho de Ministros, exonerasse Spínola e Costa Gomes. Marcello assumiu a responsabilidade pela saída do livro e pediu a demissão, que não foi aceite. Após este incidente, 120 oficiais-generais foram prestar fidelidade e lealdade ao Governo – Spínola e Costa Gomes, faltaram a esta manifestação.

16 de Março de 74 - Uma coluna do Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha avançou sobre Lisboa. Sem os apoios que esperavam, regressaram à Unidade. Foram presos 200 militares; Otelo Saraiva de Carvalho começou a planificar a estratégia e redigiu o Plano Geral de Operações a ser aplicado na semana de 20 a 27 de Abril.

21 de Abril de 1974- Foram marcadas as operações a cargo das unidades militares que participaram na madrugada de 25. de Abril.

22 de Abril de 1974- Otelo e Costa Martins asseguraram os contactos nas estações de rádio. Foram indicadas as senhas e as horas a que seriam transmitidas: “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, em 24 de Abril, às 22H55, nos Emissores Associados de Lisboa e “Grândola Vila Morena”, por José Afonso, às 0H20 da madrugada de 25 de Abril, na Rádio Renascença.

 

E foi assim que as Portas de Abril se abriram de par em par…

 

Trinta e três anos se passaram… dos ideais que nortearam Abril o que é que nos resta? HOJE, já bem acordado desse sonho de há 33 anos, começo a pensar que o 25 de Abril foi… apenas um SONHO de meio milhar de idealistas!  25 de Abril, sempre!

 
23/04/07
Milú Gomes


[1] - Excerto de “Cantar Alentejano” - Zeca Afonso

[2] -Excerto de “É preciso avisar toda a gente” – Francisco Fanhais

[3] -Excerto de “Menina dos olhos tristes” – Zeca Afonso


- Faço minhas as palavras de Pedro Barroso;
- É preciso ouvir/sentir/viver este poema!
  (são só 4,20 minutos...).


sinto-me: a sonhar Abril!
música: "Canção para a Unidade" - Pedro Barroso
publicado por zeca maneca às 22:36
link do post | comentar | favorito
|
10 comentários:
De wind a 23 de Abril de 2007 às 23:38
o 25 de Abril não foi um sonho, foi uma realidade, as pessoas é que já esqueceram.
Era preciso outro 25 de Abril.
Parabéns pelo post!:)
beijos
De Ludovicus Rex a 23 de Abril de 2007 às 23:40
Bom artigo, 25 de Abril, sempre!
De lena a 24 de Abril de 2007 às 21:31
parabéns por todos este momentos onde se sentiu e se ouviu cantar Abril

uma imagem de Abril, brilhantemente escrita, 33 anos depois

recordo aqui muito do que aprendi de relatos do meu pai, pois foi uma das vitimas do fascismo

deixo um poeta que também gritou Abril muito alto e que muitos desconhecem, mas que para mim tem um significado muito grande, embora já não esteja entre nós, sim também ele uma grande vitima do fascismo, nas masmorras da pide e nos campos do Tarrafal


Havemos de voltar


Ás casas, às nossas lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar


Às nossas terras
Vermelhas do café
brancas do algodão
verdes dos milharais
havemos de voltar


Às nossas minas de diamantes
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar


Aos nossos rios, nossos lagos
ás montanhas, às florestas
havemos de voltar


À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar


À marimba e ao quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar


À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar


Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente


Agostinho Neto
(Cadeia de Aljude,
Outubro de 1960)
Sagrada Esperança


de novo os meus parabéns Mily, excelente o momento que nos deixou, que se transformaram em vários momentos todos tais reais e chocantes

um abraço meu e deixo-lhe um cravo vermelho

lena
De Jofre Alves a 25 de Abril de 2007 às 23:53
Este blogue é aprazível, onde sopra um compromisso com a vida e o bom gosto. Tudo apreciei. Espero voltar mais vezes, para me saciar.
De zeca maneca a 4 de Maio de 2007 às 14:41
Amigo Jofre Alves,
Quero agradecer-te o comentário que deixaste no "Movimentum".
Tento cumprir o compromisso com a vida que assumi ainda muito novo, no sentido de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna.
Gostei muito do teu blogue, Uma lufada de informação e de amor à arte.
Um abraço,
JG

De Milú a 27 de Abril de 2007 às 23:36
Quero agradecer os vossos comentários e, também, o número record de visitas a este blogue.

Milú
De margaridarcoelho@hotmail.com a 4 de Maio de 2007 às 03:18
Por um feliz acaso passei por aqui. Quero deixar o meu comentário. Só quem viveu o antes do 25 de Abril de 1974, sabe sentir a LIBERDADE hoje. É urgente que se fale à juventude o que é viver sem liberdade, não poder dar opinião, ter uma polícia política vigilante 24 horas e quem agisse contra o que estava estabelecido era preso, torturado. Muitos sofreram e pagaram com a morte pela Liberdade.

Parecia não haver um fim a uma ditadura de 40 anos.

Todas as tentativas eram goradas.
Mas eis que numa madrugada (por sinal nessa madrugada saia eu e alguns amigos do Coliseu dos Recreios. onde fomos assistir à ópera Aida ) floresce a Revolução dos capitães de Abril !
O rádio do carro não estava ligado, pois uma ópera é sempre motivo de troca de impressões e de êxtase no Portugal com tão pouco para nos dar. Só na manhã (já o sol ia alto) ficámos de"boca aberta" com o acontecimento!

VIVA O 25 DE ABRIL SEMPRE!

(Margarida)

P.S. Excelente página !
De zeca maneca a 4 de Maio de 2007 às 09:23
Obrigado, Margarida, pelo comentário.
Gostei que tivesses compartilhado connosco essa tua vivência do 25 de Abril. De pequenos gestos como esse se faz a história.
Espero que apareças mais vezes.
Tomei a liberdade de anexar o teu email aos meus. Assim poderás tomar conhecimento da actualização dos nossos blogues (Chuviscos, Movimentum, Movimentum2).
Obrigado, mais uma vez, pelas tuas palavras.
Milú Gomes
De Mais um de Abril a 27 de Maio de 2011 às 11:16
Porque se esquecem sempre de Luís Cilia??
De João Sousa a 17 de Abril de 2012 às 18:39
Não se soube usar a liberdade porque a esquerda entrou em força e com ela passou-se a uma libertinagem, que é algo bem diferente de liberdade. Se o país mal estava, mal ficou e o exército agiu á imagem do exército do Egipto! Não foi lutar pelo povo ou liberdade do povo e sim pela sua própria liberdade (para escaparem á guerra em África) e pelas suas benesses! Basta olhar hoje para o relatório do Wikileaks que demonstra que somos um país dos generais sentados e almirantes sem barcos! A pirâmide do exército está invertida e quem hoje nas bases sai á rua a clamar por novos 25 de Abril anda enganado e mal informado tal como a geração dos enrascadinhos sem habilitações, pois devem virar-se é contra as suas chefias! Andam para aí muitos patetas a dizer que querem novos 25 de Abril mas é tudo gente mal informada porque não se fazem revoluções em democracia e para ficarem com dívidas na mão. Os modelos de sucesso são os dos países do norte da Europa que arrumaram a casa há uns 30 anos. Na Europa nenhum país quer comunismos ou socialismos. Andaram a vender ao povo português foi facilitismos, políticas de imigração sem critérios onde qualquer um entra para sugar subsídios de inserção que são a grande maioria da despesa do Estado e não grandes ordenados que são uns 900 e se fossem todos distribuidos pelo povo daria apenas 5 eur no bolso a cada papalvo. É só populismos e promessas e a esquerda não aprendeu nada com a crise. Aquele Parlamento na ala esquerda devia ser tudo corrido de lá! As pessoas andaram todas adormecidas a achar que na vida é tudo fácil e sem planeamento nenhum de filhos nem de poupanças e tudo a viver a crédito, casas, carros alemães em segunda mão para o país pagar coimas de poluição que são pagas por todos e vários cartões de crédito no bolso para o consumo. Foi esta a visão mentirosa que o PS e a esquerda venderam e continuam a insistir. Foi também a esquerda a culpada da não existência de uma lei das rendas e dos prédios estarem a cair nas cidades por agirem sempre como forças de bloqueio. Esta gentinha da vida gratuita e do tudo dado e baratinho só usam como modelos países como a Venezuela ou Coreia do Norte. Portugal precisa é fazer uma revolução das mentalidades! Um 25 de Abril das mentalidades porque o povo foi traído mas também está muito ignorante e inculto face aos outros países da Europa e por isso mesmo estamos onde estamos. Já repararam também que os países da crise são todos os países da cristandade? Não é por acaso! Só há duas hipóteses: Ou se segue o caminho de refundar o país, dar mais cultura ás pessoas e seguir o consenso europeu e o modelo de sucesso dos países do norte com o devido tempo ou então aqueles que querem a libertinagem, a esquerda no poder, tem de abrir os olhos para o que representaria a saída do Euro e as loucuras que andam a defender na praça pública como seja o caos nas ruas, anti-troika ou anti-Merkel por pura ignorância e nesse caso, terão vidas ainda mais miseráveis ou inflação galopante e pobreza. Aqui a teoria neste país de ignorantes é que a culpa é sempre dos outros e nunca nossa! Faz lembrar a mão daquele papagaio do Abel Xavier contra a França! Andou sempre a negar até hoje e o país todo a encobrir a verdade. Fátima outra mentira e um país que asenta em mentiras e num povo ignorante não vai longe. Até dá vontade de rir ver aquele idiota do Seguro e o campónio Cavaco a apoiar a entrada da Sérvia na Europa, quando o alargamento foi também outra das causas da crise europeia, já para não falar no erro que foi o espaço Schenguen mas para este génio da banalidade, lá venham mais Sérvios, mais tráfico de armas, mais turcos com tráfico de droga. É isto que a esquerda da Europa defende! Entrem todos e venham todos chupar os subsídios de inserção!

Comentar post

.mais sobre mim
.pesquisar
 
.Agosto 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
.posts recentes

. Depois de Férias

. Até um dia destes...

. Uma vida sempre a correr....

. Um soneto de Florbela Esp...

. DIA DA MÃE

. Uma viagem virtual por Ti...

. Páscoa...

. Neste dia, aquele abraço!

. O último poema de Victor ...

. Soneto

.arquivos

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

.tags

. todas as tags

blogs SAPO
.subscrever feeds