Terça-feira, 29 de Novembro de 2005
FERNANDO PESSOA - 13 Jun 88 / 30 Nov. 1935

Fernando Pessoa.jpg


A Poesia é um meio para reunir não só aqueles que gostam de a dizer e de a ouvir, como para manter laços de união de uma comunidade
(Fernando Pessoa)


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Fernando Pessoa


Fernando Pessoa nasceu em Lisboa a 13 de Junho de 1888.

Com 7 anos, em 26 de Julho de 1895, escreveu o seu primeiro poema (uma quadra) que dedicou à mãe: “À minha querida mamã”.

Colaborou na revista “A Águia” (1912), onde veio a conhecer e a tornar-se amigo de Mário Sá Carneiro e Almada Negreiros.

Em 1914 apareceram os primeiros poemas dos seus heterónimos Alberto Caeiro, Álvaro Campos e Ricardo Reis.

Colaborou, entre outras, nas revistas “Orpheu”, “Athena”, “Portugal Futurista” e “Presença”.

Em 1920 conheceu Ofélia Queiroz, com quem estabeleceu uma relação amorosa que durou 10 anos. O seu romance viria a acabar em 1931, por influência de Álvaro de Campos, um ano depois de ter escrito “Cartas de Amor”.

Em 1934 concorreu com “Mensagem” ao prémio “Antero de Quental”, da Secretaria da Propaganda Nacional, prémio esse que viria a ganhar.

A 30 de Novembro de 1935 Fernando Pessoa morreu no Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, onde fora internado na véspera com uma cólica hepática.

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Na Noite de Poesia de Vermoim, de 7 de Setembro de 2002, baseando-me na colagem de vários textos realizada por Rodrigo Souza Leão, “entrevistei” Fernando Pessoa e os seus heterónimos.
Comecei por lhes agradecer terem aceite o nosso convite (foram sempre ariscos a este género de coisas...) e depois de ter feito a resenha histórica supra, dei início à entrevista:

—
Quem é a pessoa atrás de Pessoa?
(Respondeu Ricardo Reis):




Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.


— Como é o seu processo criativo?
(Respondeu Alberto Caeiro):




Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior


— O que é que os deuses querem de um homem como Fernando Pessoa?
(Respondeu Álvaro de Campos):




Queriam-me casado, quotidiano, fútil e tributável?
Queriam-me o contrário disso, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!


— O senhor acredita em Deus?
(Respondeu Fernando Pessoa):




Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus, o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse Deus se esquece.
Às vezes não sou mais que um ateu
Desse Deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.


— O senhor tem um lado Zen. O que é pensar em nada?
(Respondeu Álvaro Campos):




Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida.


— O senhor foi maluco pela beleza?
(Respondeu Fernando Pessoa):




Fui doido e tudo por Deus.
Só a loucura incompreendida
Vai avante para os céus.
......................................
Só a loucura é que é grande!
E só ela é que é feliz!


— Existe algum mistério no Universo?
(Respondeu Alberto Caeiro):




O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.


— O principal desejo do poeta é a eternidade?
(Respondeu Fernando Pessoa):




Ama o infinito porque mais do que todos
se apega à vida, desejando-a infinda,
sob a simulação de resignar-se com a transitoriedade.


— O Senhor é saudosista?
(Respondeu Alberto Caeiro):




Eu amo tudo que foi,
Tudo que já não é,
A dor que já não me dói.
A antiga e a errónea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi e voou
E hoje é já outro dia.


(Respondeu, ainda, Álvaro de Campos):




Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm


— O senhor é um sábio?
(Respondeu Ricardo Reis):




Sábio é o que se contenta
Com o espectáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.


— Como definiria a VIDA neste mundo de Deus?
(Respondeu Álvaro Campos):




A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.


— Quem é o poeta? O que busca na poesia?
(Respondeu Fernando Pessoa):




O poeta é um fingidor,
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


(Respondeu, ainda, Alberto Caeiro):




Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho


— Tem algum mote que o acompanhe?
(Respondeu Fernando Pessoa):




Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.


— Qual o conselho que pode dar aos jovens de espírito?
(Respondeu Ricardo Reis):




Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.


— Para terminar, é ou chegou a ser feliz?
(Respondeu Fernando Pessoa):




Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensíveis e permeados de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no interior da sua alma. E agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um não. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.


Terminei a entrevista com um agradecimento e um abraço a Fernando Pessoa e a cada um dos seus heterónimos, enquanto no Salão Nobre, de pé, os espectadores e os amigos da Poesia batiam palmas.


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“Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens”
Fernando Pessoa, in “O Eu Profundo”


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“La Bohème”
Canta: Charles Aznavour
1965
4:05 ‘


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José Gomes
29 Nov. 05

publicado por zeca maneca às 15:40
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Domingo, 20 de Novembro de 2005
Rosa Parks

parks.rosa.6-15-99 
Rosa Parks
Activista afro-americana pelos direitos cívicos


“A América presta a sua última homenagem a Rosa Parks, pioneira na luta pelos direitos dos negros, cujo corpo se encontra, desde ontem à noite, em câmara ardente no Capitólio. Falecida em Detroit, Michigan, na passada semana, aos 92 anos, Rosa Parks será a primeira mulher a ser velada no mesmo local que presidentes e heróis de guerra. Será ainda a segunda pessoa de raça negra, após Jacob Chesnut, agente da polícia do Congresso assassinado nas escadarias do edifício, em 1998.”
São esperados milhares de pessoas, célebres e anónimas para prestar a última homenagem à "mãe dos direitos cívicos" nos EUA. «Dar a Rosa Parks a honra de ser velada aqui é um testemunho do impacto da sua vida tanto sobre a história como sobre o futuro da nossa Nação», afirmou Bill Frist, líder da maioria republicana no Senado. O Presidente George Bush e a mulher Laura eram esperados ontem à noite no Capitólio”.

- In “Diário de Notícias”, 30 Out. 05 –

Rosa Parks morreu no dia 25 de Outubro de 2005, com 92 anos, em Detroit, cidade do Michigan, Estados Unidos da América.

Quem foi Rosa Parks?

Foi uma costureira negra que em 1 de Dezembro de 1955 se recusou dar o seu lugar a um branco no autocarro, como era regra em Montgomery, Alabama. Nesta cidade os negros eram obrigados a ceder o seu lugar nos autocarros a qualquer branco que o pedisse. Habituados a serem discriminados, os negros americanos aceitavam essas regras como naturais, mas nesse dia Rosa Parks, nessa altura com 42 anos, teve a coragem de dizer não!. Iniciando-se assim um movimento que resultou na abolição da segregação racial nos EUA.
Foi de imediato presa. Uma prisão que acabaria por vir a libertar os negros de séculos de opressão. Rosa Parks nasceu a 4 de Fevereiro de 1913 em Tuskegee, uma cidade que já era famosa pela sua universidade para negros, fundada por Booker T. Washington no século XIX, mas tal como no resto do Alabama a segregação racial era a nódoa negra naquele país paladino das liberdades!
Rosa Parks cresceu numa quinta e mais tarde começou a trabalhar como costureira, profissão que exercia quando a 1 de Dezembro de 1955 se recusou a dar o seu lugar num autocarro de Montgomery a um branco. Parks recusou acatar as indicações para se levantar e acabou por ser presa, acusada de desrespeito pela ordem pública.
Nesse mesmo dia, cinco dezenas de líderes negros americanos reuniram-se para decidirem como reagir a esta prisão. Entre eles estava o reverendo Martin Luther King que se iria destacar como o principal líder do movimento pelos direitos cívicos, uma vasta campanha de pressão popular e política que nos anos 50 e 60 conseguiria fazer revogar as leis segregacionistas.
A resposta dos líderes negros foi um boicote aos autocarros de Montgomery por parte da numerosa população negra. Ao mesmo tempo, contando com a simpatia de alguns políticos a nível nacional, incluindo o Presidente Eisenhower, a pressão para abolir as leis segregacionistas aumentou de tal forma que em 1956 o Supremo Tribunal declarou inconstitucional a discriminação racial nos autocarros.
Foi a primeira vitória de Rosa Parks e dos afro-americanos.
Só em 1964 a Civil Rights Act pôs formalmente fim a todas as leis discriminatórias que tinham surgido no Sul dos Estados Unidos após a abolição da escravatura no século XIX.

Quero agradecer ao Zé, na Sessão de Poesia do Flor de Infesta de sexta-feira passada, ter lembrado este passo importante na luta pela libertação da humanidade.

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Cantam: Bob Dylan & Joan Baez
Tema: “Blowin’ in the Wind”
4,46’
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publicado por zeca maneca às 21:09
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