Terça-feira, 6 de Novembro de 2007
Fernando Pessoa por Paulo Autran

 
Paulo Autran
(1922 - 2007)

Poesia de Fernando Pessoa
(recitada por Paulo Autran)


 

Aniversário
Álvaro de Campos  (Fernando Pessoa)
 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,  

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.


Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,

O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui.. .
A que distância!...
(Nem o acho...)  
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!


O que eu sou hoje e é como a humidade no corredor do fim da casa,

Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!


Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...


Pára, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)




 

Paulo Autran

Um pequeno apontamento biográfico

 

Paulo Autran nasceu no Rio de Janeiro, Brasil. Estudou Direito na capital paulista e formou-se em 1945.

 

Desapontado com a profissão de advogado, participou em algumas peças teatrais amadoras, tendo sido convidado a estrear profissionalmente com a peça Um Deus dormiu lá em casa.

 

Pôs grandes reticências ao convite, afirmando não ser actor profissional. Graças à “pressão” da amiga Tónia Carrero, veio a aceitar o desafio. A peça que estreou para o grande público em Dezembro de 1949, tornou-se um grande sucesso, tendo recebido alguns prémios.

 

Após seu primeiro êxito comercial, Autran deixou a advocacia e dedicou-se exclusivamente à carreira artística, dando prioridade ao teatro, a sua grande paixão. Chegou a actuar em alguns filmes e telenovelas, mas é no palco que desenvolveu a sua arte e se tornou conhecido, vindo a receber a alcunha de "O Senhor dos Palcos". No entanto, também será sempre lembrado pelas suas memoráveis actuações na televisão e no cinema, em especial na sua participação em Terra em Transe, um clássico de Glauber Rocha. Faleceu aos 85 anos, em S. Paulo.

 

 

Agradeço ao Gaspar o mp3 com a declamação do Paulo Autrán.

 
 
sinto-me: ??????????????
música: Poema de Pessoa declamado por Paulo Autran
tags:
publicado por zeca maneca às 13:43
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Margusta a 13 de Novembro de 2007 às 09:54
Simplesmente Maravilhoso!
Tranquilidade na minha manhã ao escutar este poema na voz de Paulo Autran.
De Maria Mamede a 3 de Dezembro de 2007 às 22:36
Parabéns minha querida!
Que belas escolhas aqui encontro; emocionante o que colocas neste teu espaço, escrito e fotografado...

Beijos

Maria Mamede

Comentar post

.mais sobre mim
.pesquisar
 
.Agosto 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
.posts recentes

. Depois de Férias

. Até um dia destes...

. Uma vida sempre a correr....

. Um soneto de Florbela Esp...

. DIA DA MÃE

. Uma viagem virtual por Ti...

. Páscoa...

. Neste dia, aquele abraço!

. O último poema de Victor ...

. Soneto

.arquivos

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

.tags

. todas as tags

blogs SAPO
.subscrever feeds