Sexta-feira, 18 de Abril de 2008
Uma viagem virtual por Timor

Dili by night from tasquinha - Almeida Serra

Depois de um mês em que tudo correu torto, em que tive de fazer das tripas coração para aguentar este pessoal que se foi abaixo devido à partida do Kique e da minha operação, cá estou a fazer-me forte e a dar estímulo à Sónia e ao Zé Manel. São circunstâncias da vida, há momentos maus, mas temos de os enfrentar… e a Vida tem que continuar!

Quero agradecer à Palmira Marques, de Coimbra, que me autorizou a transcrever este texto sobre Timor. E tenho-a de felicitar, pois para uma pessoa que nunca esteve em Timor, relatou esta “viagem” como se conhecesse estas terras palmo a palmo.

Obrigada, Palmira, pelo texto e pela autorização a transcrevê-lo neste blog.



Também eu ouço a chuva a cair...

 

Estou em Tutuala no extremo mais extremo de Timor Lorosae! A chuva branda cai de mansinho sobre o mar. Estou descalça e com roupas leves! O clima é fabuloso! Oiço no CD, música maubere, tocada em instrumentos indígenas com sons e vozes divinos! A mesa, coberta com taís[1], apresenta-me uma variedade de frutos apetitosos! O cheiro do café de Ermera, inebria o ar! Da janela, os verdes e os azuis misturam-se. O arco-íris, está lá, a compor o bouquet. Passei a Taprobana, mas valeu a pena: agora espraio-me nas areias de Tasi Tolu e subo o Tata-Mai-Lau. Entro no beiro[2] e vou a Ataúro, a ilhota que fica a duas horas de barco. Timor é tudo o que sonhei! Estou a 18 mil quilómetros do cantinho que me viu nascer, mas nem por isso estou infeliz. Deixei tudo para trás e parti um dia, qual descobridor quinhentista para chegar o aeroporto de Baucau numa chuvosa e cálida noite. À minha espera, meus amigos, Kirsty, Francisco de Gusmão, D. Eva e senhor Jacob. Segui com eles para uma[3], no centro de Dilí, perto do cemitério, no Bairro de Santa Cruz. Instalo-me: casa simples, mas acolhedora. No dia seguinte saio para o basar[4]. Muitos catuas[5] vendendo mânu-aman[6] barak[7].Tudo me espanta, mas nada me espanta mais do que discutir os preços com os vendedores. À boa maneira tradicional, regateamos e chegamos a um consenso. Tudo é comprado com muita discussão! Almoço na Olandina uma boa feijoada à portuguesa mas provo também as bolas de etu[8] com íkan[9].

Os dias vão passando e eu conhecendo a ilha: Laklubar, Barike, Venilale, Ossu, Vikeke, Lore, avançando cada vez mais para este, chego ao meridiano 127º: Lautém, uma das preferidas de Rui Cinaty:”As manhãs, mesas de bruma , de Lautém...”. Em Los Palos, reencontro minha amiga Enia, o marido Jery e as filhas, Jenia e Libertária (porque nasceu dia da Independência). Visito ainda a campa da irmã de Enia. Sigo para Mehara e chego por fim a Tutuala. Cova Lima e Ainaro, fazem parte doutro périplo. Depois Balibó, a fronteira com a Indonésia. Os vizinhos são acolhedores! Sigo por Ermera e passo por Aileu. Regresso a Dili. Deixo para mais tarde a visita ao enclave de Oekussi.

 

A chuva persiste. Inunda os cafezais e os campos de hare[10]. Estiro-me na rede e penso na casinha que comprei, restaurei e onde decido viver. Abri mais um capítulo da vida! Estou só! Mas a solidão enche-me. Nada mais preciso para ser feliz! Abdiquei de muita coisa, cruzei continentes e oceanos, venci batalhas fantasmagóricas! Agora, quero envelhecer ”cortar as unhas dos dedos das dificuldades e contornar águas encapeladas...Quero abrir a porta do armário e voltar a pôr as asas de falcão”. No entretanto, o candeeiro de ténue e trémula luz, ilumina a sala. Escrevo vorazmente com o receio de que a memória do futuro, desapareça, e com ela, todos os sonhos vividos, olhando o mapa do crocodilo. E um dia, pela tardinha, “a ventania bufada pela Dama austera da gadanha”, vai-me apagar e poderei então, deixar-me ir...sem medos, porque fui feliz!

 

Palmira Marques

 



[1]  pano tradicional timorense

[2] pequeno barco de pesca

[3] casa

[4] bazar,mercado

[5] velhos

[6] galos

[7] muitos

[8] arroz(cozinhado)

[9] peixe

[10] arroz (plantação)




Timor  - Por-do-Sol,  Setembro 04 - A. Serra


Espero que tenham gostado deste texto tanto como eu... mas sem a lágrima marota a tremelicar ao canto do olho!

Uma boa semana,



 
sinto-me: que tenho de dar volta à vida.
música: Timor - Xutos e Pontapés
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publicado por zeca maneca às 23:54
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5 comentários:
De wind a 19 de Abril de 2008 às 01:31
Belo texto:)
Beijos
De sophiamar a 20 de Abril de 2008 às 12:00
Um belo post! Haverá alguém que o consiga ler sem a lágrima no canto do olho. Timor, nunca lá estive, mas um familiar meu cumpriu lá o serviço militar. Terra inesquecível. Gentes simples, hospitaleiras e paisagens deslumbrantes.
Desejo as tuas melhoras. Já tens um novo cãozinho. Fiquei feliz. Por ti. Por vós. Por ele que vai ser amado.
Eu tenho dois.

Beijinhosssss
De Branca Pinto a 26 de Abril de 2008 às 23:20
Bonito texto! Leva-nos em sonhos até Timor, tenho lá amigos missionários e estou num grupo, embora com um interregno, que apoia na retaguarda o trabalho deles.
Tenho algumas fotografias parecidas com estas, as paisagens são deslumbrantes e o pôr do sol é único!.
Trouxeste aqui um maravilhoso momento que nos transportou para outro mundo mas que ao mesmo tempo tem tanto de nós Portugueses.
Beijinhos
De josé Albano Silva a 8 de Julho de 2008 às 14:14
Depois de ler os seus textos a saudade dos tempos passados na terra Mau Bere foram enormes.
Bem haja
José Albano Silva
De aida a 3 de Maio de 2011 às 12:02
Adorei o texto especialmente pela riqueza dos termos locais. Aliás foi através deste texto qu eocnsegui obter ligação com outros de um álbum de 1890/1910 em que estou a trabalhar (descrever/transcrever)

Muito obrigada

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